16.2.18

Um processo entre acaso, conceito e valores



 
            Para construir tal forma para a linguagem performática sob técnicas específicas de áudio e vídeo, ainda que não findadas, foi preciso a argamassa conceitual para unir acaso e valores através do eu como artista propositor; por isso fui atrás dos materiais produzidos na década passada, que apesar de muito “naif”, já carregam a potência do que permanece, justamente por presenças estéticas de assimilação pessoal muito antigas, como questões da década de 1980, quanto o ainda pouco que assimilei na época sobre Hélio Oiticica e o cinema marginal, o cinema novo, e questões mais undergrounds, assim como o punk (e o cyber punk muitas vezes).
            Apenas para registro (já que não os considero necessariamente dignos de serem admirados) irei citar alguns acontecimentos deste processo até que enfim se chegasse a questões mais claras para a obra atual.
            Primeiramente com um tipo de cinema experimental Memórias do Meu Mundo[1] (2007) e Zona Nula[2] (2016) trazem as mesmas questões do acaso e da intervenção urbana pela proposição ficcional, algo que pode ser melhor atentado num relatório[3] sobre os anos de 2005/2006 como que introdução do que almejo como artista nos dias de hoje.
            Para se chegar a questões mais próximas às artes visuais, porém, percorri muito que sem guia estradas escuras. Com equipamentos muito limitados, realizei, por exemplo, um vídeo onde eu tentava justamente expor certas referências do cinema marginal e do cinema nacional mais antigo de modo geral, que também sofriam com o mesmo problema, o qual chamei de O personagem careta do filme[4], mas o interessante é que as mesmas referências presentes no texto deste vídeo também permanecem na minha obra atual, inclusive quando cito a persiana e dez anos depois sigo realizando um trabalho de vídeo com persianas; além é claro de toda questão à urbanidade e Blade Runner presentes, que pode inclusive ser visto em outro vídeo totalmente diferente como estrutura, mas que se faz lembrar: Blade Runner contra o Cogumelo Mágico[5], onde o título me remete ainda à O Capitão Bandeira contra o Dr. Moura Brasil.
            Entre 2008 e 2010 realizei então muita coisa em fita mini dv, onde havia uma investigação por um tipo de cinema que entrasse cada vez mais na realidade, algumas produções mais curtas como Vamos ao jazz[6] e outras tantas que nem cheguei a digitalizar, mas que eu inicio uma pesquisa de utilização da fita como regra mais importante de controle para qualquer acaso, onde eu deveria dar uma linha de proposição a tal fita e ir utilizando ela com amplitude de possibilidades até formar um longa-metragem, nisso eu tentava conceituar um cinema que eu chamava de Modertrô[7] já baseado num livro que começo a escrever em 2004 e encerro por volta de 2009, que é justamente um texto-performance (sem que na época eu tivesse ideia disso), em que por ele eu investigo questões estéticas, conceituais e formais também como autoconhecimento. Anos mais tarde, ao ter conhecimento de Antonin Artaud e Peter Brook, por exemplo, se trabalham essas proposições com mais facilidade, como no caso de Conveniência 24 horas[8], mas até lá, meu processo por viés hibrido se dá meio lentamente.
            Em minhas explorações solitárias com tinta, comecei a inserir o dialogo videático também, no que chamei de Vídeo crazy[9], mas já eram pensamentos muito mais híbridos, sendo que minha primeira arte foi a poesia, vê-se as ligações com coisas que já me chamavam muito a atenção quando eu assistia a programação do Sesc TV da época, em que haviam os programas de artes visuais, vídeo e dança, onde algumas referências voltam, por exemplo, neste vídeo realizado na faculdade de artes visuais chamado De Ionesco a Tadeu Jungle[10] e neste caso, todavia, já vinha trabalhando com uma ênfase grande sobre o áudio, pois consta do ano anterior o primeiro registro de audioperformance. Mas ainda tratando da década passada, mais ou menos na época dos “Vídeo crazy”, realizei umas intervenções de stickers pela cidade com minha irmã, em que eram umas tiradas um pouco surreais, mas pouco presentes no interior, em que mantive algum registro em vídeo[11], porém essas questões da intervenção urbana com a performance vão tomar corpo realmente com o Trípolo Art[12], composto por mim, Raquel Zanini e Sandro Consul, mas sempre com a presença de mais amigos; ao chegarmos em Curitiba em 2011 começamos a produzir vídeos intervenções em museus e espaços público, algo que se prolongaria por uma vasta série de produções diversas, inclusive sobre a já citada ficção Zona Nula.
            Ocorre aqui justamente a aproximação do acontecimento como intervenção pela performance, como em GodArt[13], GodArt 2[14] (inclusive sendo GodArt 2 um dos disparadores principais para Zona Nula) e Balão poema[15], assim como num ato com Joe Homeless em Samba de argentino[16], porém existe muito material do trio desde 2012 ainda a ser finalizado, onde as intervenções ocorrem com maior ou menor intensidade no ambiente público e com diferentes abordagens, inclusive em outras cidades como Florianópolis e Balneário Piçarras.
Mas a questão da videointervenção ainda viria a ocorrer mais uma vez comigo e Sandro Consul, mas já em minha fase Androide. Entre os anos de 2014 e 2015 estive muito imerso pela ficção científica tanto do cinema quanto da literatura, lendo muito Willian Gibson e Philip K. Dick, mas também estudando Donna Haraway, Nietzsche e Deleuze e Guattari, essa junção formou muito da minha concepção atual, mas principalmente nesta época em que eu estava trabalhando um performer ainda persona baseado numa questão androide. Escrevi uma peça de teatro curta sobre o tema, fiz um caderno de processo que finalizaria na ideia de uma instalação relacional, mas também foi nessa época que fiz três álbuns sonoros, dos quais o primeiro Trilha sonora para filmes de ficção cientifica[17] eu tinha como objetivo criar vídeos para cada uma das 9 faixas, o que não foi possível pela falta de recursos.
O primeiro, porém, é de fato uma videoperformance pensada como tal pelo Trípolo Art, sendo aqui conscientemente o ato de performance do vídeo como eu dizia na época, mas que é quando sujeito e objeto imbricados formam o fenômeno em si, dessas investigações iniciais sobre o conceito ainda em 2013 onde já havia iniciado a produção de alguns sons, surge então Cyber existencialismo[18].
Tentando construir uma narrativa, com a ajuda de Raquel Zanini fazemos o segundo vídeo da série O cigarro do androide[19]. E seguindo a tradição das videointervenções, juntamente com Sandro Consul fazemos o terceiro e último da série filmado no Museu de Arte Contemporânea de Curitiba: Sai fai[20].  
            Em 2005 fiz um curso intensivo de cinema na então curitibana Academia Internacional de Cinema, depois realizei um curso de fotografia, que me deram certa base técnica, mas só a partir de 2012 comecei a pensar certas produções pela questão mais cênica do fenômeno in loco, pois quando fazia um curso técnico de produção de áudio e vídeo tínhamos proximidade com o curso de artes dramáticas da mesma instituição, que me permitiu pensar outras relações artísticas, foi nesta época que escrevi minha primeira peça de teatro, composta de cinco quadros sem relação linear uns com os outros, mas que neste momento foi muito influenciada pelo existencialismo, por minhas leituras da época serem principalmente Heidegger, Espinosa e Sartre. Com Trilha sonora para filmes de ficção científica, além de pensar em fazer uma espécie de audiovisual linear (quase todas as músicas do álbum acabaram sendo trilha sonora do Zona Nula), também me veio a ideia de construir uma peça, um teatro físico, o qual ainda pretendo elaborar. Algo que ocorreu semelhante com o álbum de 2015 Trilha das Noites[21] foi que recentemente escrevi um happening (até a presente data, não executado) para ser feito sobre este.
            Entre estes dois consegui produzir outro álbum, um pouco mais “pop”, pois já possui vocal, chamado Violetas sintéticas[22] (referência clara a 1984 de George Orwell) em que a primeira música Doc 3[23] que passou por várias versões, iniciou com uma base que criei e chamei de “Cor 90”, enviei para o Nano Gontarski e este desenvolveu a sonoridade sobre esta, depois eu criei a letra e fiz o vocal. Com Dança pós-moderna[24] que consegui um resultado mais satisfatório sozinho do que almejava, muito inspirado também por Fausto Fawcett tentei fazer essa ficção funkeada. Outro detalhe importante é que as imagens usadas nestas duas últimas músicas citadas são de um ensaio de fotoperformance do Trípolo Art realizado em 2014.
            A última música do álbum, Das moda[25] foi a que surgiu mais ao acaso e rápida, e por tratar de questões mais efêmeras, apesar da clara citação à História do olho de Georges Bataille, resolvi fazer o vídeo usando também uma estética que eu andava bastante interessado na época, sob influência do Tumblr, vaporwave, retrôwave e similares, ouvia muito synthpop também e eu queria fazer uma experiência com Chroma key.
            Ultimamente me interessam os valores a serem transmitidos pelo artista, no sentido que a verdadeira arte deste está nos valores que ele cria, é a criação de existência da qual fala Nietzsche. Meus estudos atuais estão envoltos de budismo e filosofia grega antiga, epicurismo, ceticismo e os cínicos, justamente por tratar da horizontalidade, os aspectos rizomáticos propiciados pelo mundo contemporâneo, mas necessários de reconhecimento pelo indivíduo, para a quebra dos sistemas de poder.
            Ao estudar os Escritos de artistas[26] encontro muita da proximidade conceitual e estética que me interessam e que vejo ainda necessários de serem explorados, como neste vídeo em que adaptei o texto de Yves Klein, Martial Raysse e Arman, Os vampiros da sensibilidade[27].
            Atualmente meus processo de videoperformance envolvem uma aproximação com Vito Acconci e Andy Warhol, mas os valores que me instigam são muito mais da sensibilidade elevada à questões talvez deixadas pelo mundo cada vez mais pasteurizado pela produção de massa, assim o jazz, a moda e o bushido me inspiram a produzir arte, inclusive reavaliando questões contemporâneas como a selfie[28] e o funk brasileiro[29], por exemplo.

Diego Marcell
16 de fevereiro de 2018



[17] Segue no portfólio.
[21] Segue no portfólio.
[22] Segue no portfólio.
[26] FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecilia. Escritos de artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
[29] Tenho desenvolvido um projeto de funk de forma mais conceitual sem deixar de ser pop.

14.2.18

Os happenings (nota introdutória)




            Creio que o fato de a grande maioria das performances que escrevi até aqui serem happenings se dá pelo meu interesse em dar mais vazão ao acaso, ou até do acaso controlado, fazer da proposição o laboratório de sensibilidades, testar vivências imersivas em elementos extraídos de mim. Compartilhar e aderir.
            Ficcionar um momento para dar realidade à ficção. O diálogo nascido nas experiências de ficção audiovisual alterando de acordo com o propósito, sua permissividade tanto discursiva quanto sensitiva, mas sob um mesmo propósito, uma mesma vontade, e um similar caminho.
            Para a ampliação sensível ao acaso da experiência do acontecimento, fui dando ao vídeo agilidade como guia da ficção, para depois inseri-lo na proposição como propositor.
            Houveram então os momentos de proposições públicas com vídeo, proposições desordenadas, com pouquíssimos elementos compartilhados entre os atores.
            Mas as grandes influências para o happening vieram primeiramente pelo teatro e depois pelas artes visuais, o que transformaria o acontecimento em si em evento ou espetáculo.

Diego Marcell
28/12/17
/happening

13.2.18

Improviso




Se tomo consciência do acaso por Sganzerla e Oiticica e, aderir a este elemento em minha produção como fundamental, hoje em meio ao caos produtivo em que desvendo a novidade pelo próprio descobrir, posso retornar a questões fundamentais desta poética construída por sua própria experiência: é o processo.
            Em Mil platôs Deleuze e Guattari escreveram que era necessário àquele próprio livro a estrutura rizomática de sua composição. Agora, se expresso essa informação aderida sem referenciar é porque faço de punho e de improviso. Certa vez escrevi que o improviso nasce do treino, neste caso, da assimilação conceitual causada pelo estudo. O faço por outra aderência conceitual, o da antropofagia de Oswald de Andrade. A melhor maneira de expressar este fenômeno a mim fornecido numa fala/performance de Luiz Fuganti, quando este explicava a alguém da plateia que suas citações eram desordenadas e não exatas pois tratava-se de uma criação ocorrida, justamente por esses meios, mente/fala. Aqui, esta citação que ocorre dele, faço da mesma forma, no sentido em que compreendo e resignifico. Passa a ser extensão de mim como organismo cibernético e este, adquiri de Donna Haraway.
            Uma das características da minha produção é justamente o diálogo constante com minhas referências, resignificadas ao meu universo, sendo assim, o texto passa a ser também em sua limitação a chance de transpor a mensagem e atentar a forma como valor não padronizado, por ser ele mesmo aqui e agora expressão performática sob técnica adquirida por treino e autoconhecimento, por isso improviso.
            Se opto por apresentar um trabalho que se mescla pelo hibridismo conceitual é porque sua recepção sofre justamente por sua estrutura chamar o público à quebra da norma, em vários níveis e por diferentes caminhos e apresentações.
            Assim eu posso tanto falar do ensino de arte como artista e posso falar das produções por outros suportes, mas da mesma maneira posso depositar sobre o texto um objeto acabado – por questões de mercado, academia e sistema de modo geral – tanto quanto de imanência.
            Enquanto a transcendência cabe à estrutura de poder, manifesto nas regras da ABNT; com a imanência eu cria a vida, mantenho a energia do que foi deglutido e a transformo e a arremesso no espaço, alterando a física e criando novo valor, sem juízo.

A maior parte das definições de performance põe ênfase na natureza do meio, oral e gestual. Seguindo Hymes, destaco a emergência, a reiterabilidade, o re-conhecimento, que englobo sob o termo ritual. A “poesia” (se entendermos por isto o que há de permanente no fenômeno que para nós tomou a forma de “literatura”) repousa, em última análise, em um fato de ritualização da linguagem. Daí uma convergência profunda entre performance e poesia, na medida em que ambas aspiram à qualidade de rito. Utilizo aqui esta última palavra despojando-a de toda conotação sacra. Entre um “ritual” no sentido religioso estrito e um poema oral poderíamos avançar, dizendo que a diferença é apenas de presença ou ausência do sagrado. No entanto, a experiência que tenho das culturas nas quais subsistem tradições orais vivas, leva-me a pensar que essa diferença não é percebida por aqueles partícipes dessas culturas. No caso do ritual propriamente dito, incontestavelmente, um discurso poético é pronunciado, mas esse discurso se dirige, talvez, por intermédio dos participantes do rito, aos poderes sagrados que regem a vida; no caso da poesia, o discurso se dirige à comunidade humana: diferença de finalidade, de destinatário; mas não da própria natureza discursiva. É verdade que, historicamente, o discurso ritual tem a tendência de perdurar em sua forma, de ser menos acessível que o discurso não sacro aos fenômenos de movência e de variação. Mas não é esse ponto (em nuances aproximadas) mais uma semelhança com toda a poesia – com nossa própria “literatura”?
     Tudo se passa como se a poesia tivesse, entre os poderes da linguagem, a função de acusar o papel performativo desta: performativo não equivale futilmente a performancial! No correr do tempo, e segundo os contextos culturais, essa convergência pode se achar parcialmente dissimulada, mas não é este o problema.
     Este se explica à luz de duas oposições de natureza muito geral, e tendo a ver com a função das formas de linguagem.[1]

Quero dizer com isso que a poièsis do corpo está presente na poesia (literatura ou simplesmente texto) como agente para mover o mundo pelo artista sendo este desprendido dos valores do sistema, pois torna-se agente do novo com seu amalgama principalmente nas casualidades da vida, tendo aí que improvisar, nascendo assim do acaso fenomênico novos valores para a existência de um todo.

Diego Marcell
24/12/17 – 14/02/18


[1] ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Tradução Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Cosac Naify, 2014. Pp. 47-48.